sexta-feira, 7 de junho de 2024

 

BORBOLETAS

 

Borboletas me convidaram a elas.


O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.


Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.


Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.


Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.


Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.


Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.


Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.


Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta.


Ali até o meu fascínio era azul.

 

[Manoel de Barros]

 

 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

MIRÓ, Juan. Paisagem catalã com caçador (1923 – 1924).


GOGH, Van. Olive trees with yellow sky and sun (1889).


DALI, Salvador. A persistência da memória (1931).


MONET, Claude. Water Lilies (1916).


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Ciências & Literatura - Antônio Gedeão


Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
     
Antônio Gedeão